segunda-feira, 28 de julho de 2008

Um dia estamos aqui, outro dia estamos lá...

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-Vó?

-Oi?

-Ontem eu vi de novo aquele filme que você gosta.

-Qual, minha querida?

(como se não houvesse muitos filmes que a Vovó amava).

-Aquele daquele homem que é meio bobo e fica contando histórias no ponto de ônibus...

-Ah, sei...Forrest Gump...

-Isso.

-E você gostou do filme?

-Gostei, mas não entendi uma coisa...

-O que?

-Quando começa o filme, tem uma pena voando, que voa, voa, e cai no colo do Forrest Gump. Ele guarda "ela" no livro e começa a contar a história para um monte de gente.

-Exato.

-Então, no final, ele abre o livro e ela sai voando outra vez. Para que serve essa pena, heim, Vovó?

-Bem, pituquinha, ele explica isso no final. Talvez você não tenha percebido.

-Acho que não.

-Forrest Gump não é uma pessoa igual às outras: ele tem uma inteligência limítrofe. Não fale que ele é meio bobo que isso é muito feio. Ele tem uma inteligência de uma criança de cinco anos, por isso tem dificuldade de entender as coisas como as outras pessoas. É um homem grande com a cabeça de uma criança, não é meio bobo ou retardado, tá bom?

-Tá.

-Você quer saber por que a pena começa o filme voando até pousar no colo do Forrest Gump, e depois sai voando de novo, não é?

-Isso.

-Então...no final do filme, ele conta que na sua vida houve duas pessoas que o influenciaram muito: uma foi a sua mãe, o outro, seu amigo que ele conheceu na guerra do Vietnã, que é o tenente Dan.

A mãe ensinou para ele que ter uma deficiência não é desculpa para desistir da vida. Ela se recusou a colocá-lo em uma escola para deficientes, e sempre empurrou o filho para frente, sempre ensinou-o a não se conformar com as suas próprias limitações. Forrest foi para a escola, estudou, teve um problema na coluna que o obrigou a usar aquele aparelho horrível, você lembra?

-Lembro sim.

-Tem uma cena que a Vovó gosta demais nesse filme, que é aquela em que os meninos valentões correm atrás dele numa caminhonete. Eles querem zoar com ele e até machucá-lo, e a sua amiguinha grita para o menino:

Corra, Forrest, corra!

Ele sai correndo, de aparelho e tudo, a caminhonete atrás dele, os meninos gritando...à medida que ele corria, o aparelho vai caindo, pedaço por pedaço, e quanto mais ele se livrava do aparelho ortopédico, mais rápido ele conseguia correr, mais ele deslanchava, até entrar correndo em um campo gramado e sumir ao longe, deixando para trás os seus perseguidores...

-Vó?

-Oi?

-Você está chorando?

-Não...não querida, é que a vovó esqueceu de pingar o colírio (falou isso enquanto enxugava furtivamente algumas lágrimas).

-Por que você gosta tanto dessa cena, Vovó?

-Porque Vovó acha essa cena muito emocionante, muito alegórica.

-Alê o que? Riu-se gostosamente.

-Alegórica. Quer dizer que ela tem um significado maior do que está na tela.

-Qual significado?

-Na vida, a gente fica tentando endireitar tudo, minha querida, e às vezes temos que passar muito, muito medo para podermos nos livrar de nossos aparelhos, de nossas muletas. Forrest descobre que já está pronto, que pode correr como ninguém, como ninguém, e mais longe do que qualquer menino valentão e bobo que se acha grande coisa... Olhou para a neta, que a olhava fixamente.

-Desculpe querida, acho que me empolguei um pouco.

-Vó?

-Oi?

-É para isso que temos medo?

-Acho que sim.

-Temos medo para tirar as muletas?

-E os aparelhos. E ir para frente.

-Legal. Vó?

-Fala.

-E a pena?

-É mesmo, já ia me esquecendo...então, eu falei que a mãe de Forrest Gump o ensinou a nunca sentar sobre seus problemas, a nunca se intimidar com as suas dificuldades. Ela ensinou para ele que, na vida, Deus dá uma série de cartas para a gente jogar o jogo, e temos que aproveitar as nossas cartas do melhor jeito possível.

-E a pena?

-Já vai, já vai...a outra pessoa importante na vida de Forrest Gump é seu amigo, tenente Dan. Juntos, eles foram para a guerra, tiveram um pesqueiro, montaram uma empresa e ficaram muito ricos.

E o tenente Dan ensinou que na vida, a gente é como uma peninha levada pelo vento, de um lado para outro, e nunca tem como descobrir para onde vai o sopro de Deus, nunca a gente sabe para que lado vai a pena.

Fez-se um silêncio grave.

-Como assim?

-Quando você crescer, vai perceber como nosso destino é caprichoso, meu bem. Um dia estamos aqui, outro dia estamos lá, como se tivesse um gozador assoprando a vida para lá e para cá, para lá e para cá. (fez um movimento com a mão, simulando a pena indo e voltando. A menina acompanhou com os olhos.)

-Quer dizer que a gente não sabe para onde vai essa pena?

Trouxe-a para mais perto.

-A gente não sabe...mas sabe, quando a gente chega na idade que chegou a vovó aqui, podemos perceber os caminhos misteriosos que a pena toma no ar, até pousar, segura, no colo de Deus. Mas isso a gente só descobre depois de passar muito tempo tentando adivinhar:

qual a direção do vento?

qual a umidade relativa do ar?

qual o peso da pena?

como o Caos vai comandar a direção que a pena vai tomar?

Coçou a cabeça, em seu gesto característico.

-Vó?

-Oi?

-O que acontece quando a gente pára de tentar advinhar para onde vai essa pena?

-A gente se deixa levar pelo vento, minha querida.

-Quer dizer que você dá razão para a mãe e para o amigo do Forrest?

Olhou com uma agradável sensação de surpresa.

-Isso mesmo, como você é esperta!

Eu dou mesmo, razão para os dois. A gente joga da melhor forma que puder, com o máximo de empenho, mas também respeita as linhas do vento.

Gostou?

-Gostei, gostei muito..sabe, vó, é tão bom ter você...será que um dia esse vento vai te levar para longe de mim?

Estremeceu ligeiramente.

-Não, meu bem...por mais longe que vão nossas penas, nosso coração vai estar sempre perto um do outro, tá bom?

-Tá bom.

Ficaram em silêncio de fim de conversa.

-Eu vou brincar um pouco, tá?

-Isso, vai brincar de Forrest Gump.

-Vou correr até cansar.

-Isso. Vai mesmo.

Mal conseguiu disfarçar a voz embargada de lágrimas.

Autor: Marco Spinelli é médico psiquiatra e psicoterapeuta. Coordenador clínico da Hormê.

Endereço eletrônico da Hormê é

horme@uol.com.br

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"Há pessoas que choram por saber que as rosas tem espinhos. Há outras que sorriem por saber que os espinhos tem rosas!"

(Machado de Assis)  

7 comentários:

EternaApaixonada disse...

Bom dia querida Cléo!
Que bom ter deixado o note ligado!
Fui desligá-lo e vi que tinha atualizado... Não resisti... O título chamou-me atenção e, valeu a pena ter acessado teu blog mesmo com sono!
Maravilha de post, amiga!
Muito bom mesmo!
Anotarei o link para depois passar lá. Obrigada por compartilhar.
Desejo que tenha uma ótima semana!
Beijos

xistosa - (josé torres) disse...

Uma lição de vida!

De vida normal de sucessos e insucessos.

Haverá palavras que descrevam melhor o que está escrito?

Desejo-lhe que tenha uma boa semana, (depois de enxugar as lágrimas ...)

Zé Carlos disse...

Cleo querida, que bom vc ter vindo e escrito.... Como é lindo seu Blog!!! e só assim pude conhecê-lo...
Um beijo enorme do novo amigo, ZC

Ana Maria disse...

Oi Cléo, belíssimo texto, bem reflexivo e emocionante, nunca devemos nos intimidar com nada.
Amiga, obrigada pelas visitas nos 3 blogs. Uma ótima semana cheia de sucessos.
Beijinhos.

Malu Godinho disse...

olá querida...
Então adorei o seu blog, e os seus escritos são interessantes.
Se puder da uma passadinha la no meu!
Bju...
até mais!

Maldito disse...

Que interessante,...
Sua conversa com sua avó, já gera um novo filme!
Parabens!

Bjs Cléo!

Carla disse...

li, reli...emocionei-me e fiquei feliz por ter passado por aqui
beijos e obrigada

Quem sou eu

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Um pássaro que não quer ser aprisionado...Assim é minha alma...Que pousa onde encontra alento e amor...Mas que precisa estar livre para voar se assim desejar...Sou fiel aos meus sentimentos e não aceito que me prove...Quando amo sinto a intensidade do amor percorrer cada célula de meu corpo...Minha alma que de tão transparente é lúcida...Sou menina...Sou mulher...Quero tão pouco dessa vida... Quero fogueira para dançar...Quero a lua e as estrelas compartilhando minha dança...Quero a brisa da madrugada me envolvendo...E quando os primeiros raios de sol nascer...ainda quero presa entre meus dedos uma taça de vinho seco...Lanço a sorte a todos e como recompensa recebo-a de volta...Assim é minha alma cigana...

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